Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Violência contra idosos

Foi com grande tristeza que há dias atrás, liguei a televisão para ver o telejornal e, a notícia de abertura foi qualquer coisa do género Violência contra idosos aumenta em Portugal.
Este blog não pretende só mostrar como saber fazer na saúde, mas também procura alertar para os problemas que vivem ao nosso lado e muitas vezes são desconhecidos.
Pela experiência que tive no pré hospitalar, infelizmente assisti a cenas deploráveis, no que toca a idosos, tanto da parte dos familiares, como da parte das instituições que os acolhem e até mesmo dos hospitais. Muitos foram aqueles que me contaram as suas histórias de vida, no percurso casa, lar ou hospital. Muitos também foram aqueles que em dias de festas, fins de semana, ligavam para a central dos bombeiros a pedir uma ambulância, inventando 1001 doenças, só para terem a companhia de alguém.
Isto é grave. Demasiado grave. E não podemos estar de olhos fechados ou dizer que estes problemas nos passam ao lado. Não. Hoje são eles. Amanhã seremos nós.
Mesmo nos hospitais, a apatia e indiferença de alguns profissionais de saúde, perante um pedido de auxílio de um idoso, as prioridades de tratamento, as longas esperas nos corredores e, muitas vezes, no meio da azáfama, os esquecimentos dessas mesmas pessoas...
Para ajudar a compreender a dimensão do problema, deixo em baixo um texto que encontrei ao pesquisar sobre este tema.

O aumento da esperança de vida tem vindo a criar situações em que os filhos e os outros familiares directos dos grandes idosos, também já são idosos, muitas vezes também estes já estão a precisar de apoio e não estão em condições de cuidar de outras pessoas.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) teme que o aumento do número de idosos no mundo agrave as situações de violência relacionadas principalmente com a ruptura de laços tradicionais entre gerações e com o enfraquecimento dos sistemas de protecção social.

Prevê-se que o número de pessoas com mais de 60 anos duplique até 2025, passando de 542 milhões em 1995 para 1 200 milhões nessa data, dos quais 850 milhões em países em desenvolvimento onde a preocupação fundamental é com a força trabalho activa e não com a força de trabalho já consumida, como é o caso dos idosos.

Segundo a OMS, apenas 30% dos idosos do mundo inteiro estão actualmente a receber pensões de reforma ou subsídios de velhice e invalidez, o que torna muito precárias as suas condições de existência e os expõe a riscos acrescidos de violência; uma violência que tanto pode ser exercida em ambiente familiar como institucional ou social.

A violência na família pode ter diversas causas e assumir um carácter mais ou menos explícito. Assim, ela pode ser motivada pela apropriação, não desejada, dos bens do idoso pelos seus familiares, levando a uma perda de autonomia e de poder do idoso; pela desresponsabilização dos familiares pelos cuidados de sobrevivência do idoso, deixando este abandonado; ou pela reversão das funções de autoridade dentro da família, passando o idoso a ser comandado por alguém de uma geração mais nova a quem terá de obedecer. Trata-se, em geral, de manifestações de uma violência mais simbólica e psicológica do que física, mas nem por isso menos marcante e efectiva.

Nas instituições a violência torna-se, muitas vezes, mais aparente devido ao maior distanciamento afectivo, à impessoalidade dos cuidados e a um regime disciplinar demasiado apertado e rígido. A situação agrava-se sempre que as instituições sofrem de falta de recursos – o que parece ser a regra -, e não conseguem satisfazer as necessidades dos idosos que elas acolhem. O reflexo da falta de recursos evidencia-se na impreparação e na falta de estímulo das pessoas que nelas prestam os cuidados aos idosos e na própria baixa qualidade dos serviços prestados. Daí a imagem negativa que muitos idosos têm das instituições e a violência que representa, nesses casos, a falta de alternativas à sua institucionalização.

De uma forma geral a sociedade tolera - e, por isso, torna-se cúmplice - do abandono, da falta de respeito e da degradação da condição social dos idosos, contribuindo assim para a difusão de uma cultura de violência (decerto camuflada) contra aqueles que não se integram nos novos padrões sociais de beleza, dinheiro e consumo. A comunicação social, designadamente a televisão tão apreciada pelos idosos, cumpre um papel fundamental no exacerbamento destes valores: nos anúncios raramente aparecem idosos, os bens de consumo anunciados raramente lhes são acessíveis e a toda a hora são enfatizados os valores da juventude.

A marginalização dos idosos e a violência simbólica que contra eles é exercida operam através de processos complexos e nem sempre visíveis. Um desses processos é de natureza comunicacional. Sabe-se como, com o passar dos anos, as pessoas vão adquirindo competências culturais, linguísticas, verbais e gestuais profundamente radicadas nos contextos sociais em que a sua vida se desenrola — família, trabalho, comunidade, lazer — e assumindo diferentes modos de se exprimirem. Ignorar estes factos ou exigir que os idosos se comportem e comuniquem de acordo com os modelos actualizados é uma forma de exercício de violência simbólica, que muitas vezes dificulta as relações inter-geracionais e conduz à exclusão dos idosos da vida familiar e social.

Perante um idoso, é forçoso ter sempre presente que se trata de uma pessoa diminuída nas suas capacidades de reacção e adaptação ao meio e às agressões da vida: as suas reacções são mais lentas e os reequilíbrios do organismo precisam de mais tempo para se recuperarem, ao mesmo tempo que se começam a desvanecer os ideais de juventude, vive-se o dia a dia com desânimo e deixa-se instalar facilmente a rotina.

O processo natural do envelhecimento também favorece a marginalização, mas é importante reconhecer que não foi sempre assim. No passado, o envelhecimento era valorizado pela sabedoria de vida que traz associada. Em geral, os idosos convivem com uma sensação desconfortável de “perda” e de “luto” numa sucessão demasiado rápida, que significa também a proximidade do seu próprio fim (Stevenson, 1989). Qualquer que seja, porém, a importância do fenómeno biológico do envelhecimento, o que importa acentuar aqui é que, na grande maioria dos casos, as diferenças notórias com que deparamos entre pessoas da mesma idade se devem sobretudo a factores externos, de ordem social, que foram actuando ao longo do tempo (como o regime alimentar, a natureza do trabalho, a instrução, a vida familiar e profissional, as condições de habitação). É assim que, na mesma população, alguns indivíduos têm o seu processo de envelhecimento acelerado, pelo sobreconsumo do seu próprio corpo, enquanto que outros puderam defender-se, preservando a sua saúde e, retardando, deste modo, o seu envelhecimento.

Como se referiu, esta desvalorização social dos idosos contrasta com a riqueza de conhecimentos e de experiências que eles foram acumulando ao longo da sua vida. Só que este conhecimento e esta experiência que se aprende fazendo e se transmite porque se sabe, dificilmente consegue competir com o conhecimento adquirido pela formação escolar quando se trata de dar resposta às necessidades profissionais e à procura do mercado de trabalho.

Os idosos são, em geral, bons contadores de histórias e gostam de falar do passado e de contar em pormenor as suas vivências; mesmo tendo um ritmo de vida mais lento, gostam de encontrar interlocutores atentos para partilhar as suas experiências. Contudo, nas sociedades industrializadas a maioria das pessoas em idade activa trabalham fora de casa e lutam para sobreviver, restando-lhes, assim, pouco tempo para se dedicarem aos idosos. Por isso, muitos idosos se queixam da solidão em que são deixados durante o dia e lamentam o pouco convívio que têm com os filhos e netos, não sendo raro dizerem ter tanto para ensinar e ninguém para lhes dar ouvidos.

O ritmo de vida e as regras de conduta impostas pelas sociedades contemporâneas representam um outro factor de marginalização e de exercício de violência simbólica sobre os idosos. Estes têm de respeitar as restrições e as proibições que permitem viver nestas sociedades. Esta nova disciplina tanto opera no seio das famílias, como nas instituições e na sociedade em geral deixando um rasto de constrangimentos e de violência bem visíveis. Não cremos ser fácil mudar essa tendência, inverter o sentido da evolução social. No entanto, o reconhecimento desta realidade torna-se muito importante para melhorar a auto-estima dos idosos. Assim, pequenas mudanças de atitude, como por exemplo substituir a expressão “não faça isto” por “passe a fazer antes isto”, ou “passe a fazer desta forma porque se vai sentir melhor" marcam a diferença. O mesmo com a tendência para se infantilizarem os idosos - por exemplo, utilizando muitos diminutivos na comunicação com eles – o que lhes diminui importância e os torna menos confiantes em si próprios.

Como estes existem muitos mais exemplos do que se pode fazer e do que se deve evitar. Retenhamos alguns.

Com o passar dos anos a capacidade auditiva dos idosos também diminui e se não estivermos atentos a isso eles facilmente são excluídos dos espaços de convívio, por isso aumentar um pouco o som da televisão e da radio, ter o cuidado de falar um pouco mais alto e de frente para a pessoa facultando-lhe além do som a mímica facial, pode funcionar como um meio de inclusão nos espaços de convívio. O mesmo se passa em relação à visão que também vai diminuindo, por isso os idosos devem estar em espaços bem iluminados e com uma relação de proximidade com as coisas que querem observar, quando isto não acontece podem desmotivar-se e começar a preferir estar em locais pouco iluminados onde pensam passar despercebidos.

O ritmo do sono também se modifica com o avançar dos anos, os idosos gostam de se deitar cedo e como não necessitam de dormir muitas horas também acordam muito cedo. É importante que as pessoas que convivem com eles não achem este facto estranho não estabeleçam comparação com as outras pessoas da casa e não se mostrem incomodados com isso, pelo contrário, devem entusiasmá-los para que se levantem quando já não querem dormir mais, comecem a sua higiene diária, tomem a primeira refeição da manhã e comecem a desempenhar algumas tarefas. Frequentemente os idosos se queixam de que passam muito tempo na cama acordados e a pensar na triste vida que têm.

Os idosos com o avançar da idade começam a apresentar queixas físicas, são em geral consumidores de vários medicamentos em simultâneo e precisam frequentemente de ser ajudados para não errarem a forma como os medicamentos devem ser administrados. Não podemos esquecer que eles eliminam as drogas com mais lentidão do que os adultos e estão muitas vezes sujeitos a intoxicações medicamentosas.

O que se pode retirar destas situações, é que deve ser dada maior atenção às condições e aos contextos em que se gere violência e assumir a defesa dos idosos, com base numa solidariedade inter-geracional consciente e sem reservas.


Maria José Ferros
in http://www.violencia.online.pt


Já agora, vale a pena reflectir sobre o assunto...
...porque ser velho não pode ser ser acabado. Ser velho é sabedoria e respeito. Lembrem-se que hoje são os vossos pais, avós, bisavós, mas amanhã também vocês serão pais, avós e bisavós.

1 comentários:

LN disse...

Andava à procura de dados sobre violência nos idosos e vim aqui parar. Vou linkar, ok? bom fim de semana.

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